OPANÁ lança calendário agrícola baseado nos ciclos tradicionais do povo Avá Guarani

O calendário será distribuído às mais de 900 famílias participantes do projeto
Assessoria de Comunicação FLD
Fotos: Ana Soukef e Fabio Conterno
O projeto OPANÁ: Chão Indígena lançou, neste mês, o Calendário Agrícola Guarani, um material construído ao longo das ações do projeto que reúne referências sobre agricultura, espiritualidade e cultura Guarani. A publicação, que contou com assessoria e tradução de Eugênio Gonçalves, professor indígena do Tekoha Guarani, de Guaíra (PR), busca fortalecer os conhecimentos tradicionais e apoiar o cotidiano das comunidades, reunindo informações sobre o tempo das práticas agrícolas, os períodos de plantio a colheita e os principais momentos culturais e espirituais que orientam a cultura do povo Avá Guarani.
Foram impressos dois mil exemplares, que serão entregues às mais de 900 famílias participantes do projeto OPANÁ. Uma das particularidades do material é que ele não se organiza a partir de datas fixas, como os calendários convencionais. Trata-se de um calendário permanente, baseado em ciclos, no qual o ano é dividido em seis grandes épocas: Ára Pyahu, Ára Piro’y, Ára Ro’y, Ára Poty, Ára Pytã e Ára Haku. Cada uma delas corresponde a cerca de dois meses do calendário não indígena e marca diferentes momentos do ciclo cultural e agrícola Guarani.
Para Eugênio, valorizar o conhecimento Guarani sobre o tempo é fundamental, pois ele expressa um modo próprio de se relacionar com o plantio e com a natureza, “um modo que respeita a semente, a natureza, a época de cada coisa, os rios, e a mãe terra”.
Ele explica que dois períodos são centrais para o plantio: o Ára Poty, que começa em agosto e se estende até setembro, e o Ára Pytã, correspondente aos meses de outubro e novembro. É no Ára Poty que se dá o preparo do solo, a escolha das sementes e o início dos plantios, que se prolonga pelos meses seguintes. Entre os principais cultivos desse ciclo estão o milho, a mandioca, a batata-doce, a melancia, a abóbora e o amendoim.
O calendário também ressalta a importância do cultivo de ervas medicinais na proteção das roças. Na agricultura, essas plantas atuam como uma barreira viva, ajudando no controle natural de insetos bioindicadores indesejados, fortalecendo a biodiversidade e atraindo insetos polinizadores. Para o povo Guarani, o plantio das ervas medicinais também expressa uma dimensão espiritual de proteção.
Agricultura, cultura e espiritualidade entrelaçadas
Mais do que um guia de plantio, o calendário evidencia como a agricultura, na perspectiva indígena, está ligada à vida cultural e espiritual. No início do ano, por exemplo, após a colheita do milho, é realizado o Nhemongaraí, uma das cerimônias mais importantes na cultura Guarani, na qual acontece o “batismo” das pessoas e das sementes. É um momento de celebração, fortalecimento e preparação para os próximos ciclos.
O material também destaca a relação com a lua, elemento central na organização do tempo Guarani. De acordo com as fases lunares, há orientações específicas sobre a pesca: na lua cheia, recomenda-se evitar a atividade; na lua crescente, a pesca de superfície é favorecida; e, na lua minguante, a pesca de fundo. O calendário aponta ainda que o período das chuvas de verão é o tempo dos peixes gordos e da partilha. Além dos aspectos diretamente agrícolas, o calendário também registra tempos culturais importantes, como a época da produção de artesanatos.
Parte das ilustrações utilizadas no calendário foi produzida pelas próprias comunidades Avá Guarani, durante as oficinas para construção de Planos Comunitários, atividade que deu início à atuação do projeto OPANÁ junto às comunidades em 2024. O projeto gráfico e as ilustrações são de Wanessa Ribeiro, com diagramação de Luan Medina.
A publicação passa agora a integrar o conjunto de materiais pedagógicos produzidos pelo OPANÁ, sendo um importante suporte às famílias acompanhadas pelo projeto. Além da distribuição física nas comunidades, o material também está disponível para consulta no site, através deste link, contribuindo para a difusão de conhecimentos e para a valorização da cultura Guarani.





